26 de mar de 2010

Charlie & China - os amores bebês

Quando Zazá morreu meu pai achou que o melhor a fazer era me tirar de casa e procurar outro gatinho que estivesse precisando de ajuda. Não gostei muito da ideia, afinal, minha filha havia acabado de partir. Procuramos pelo Mercado Central, mas não encontramos nenhum.

Fui para o consultorio dele e fiquei lá chorando durante horas. Ainda chovia muito, o céu e meu coração cinzentos.

Depois de algum tempo, meu pai apareceu com uma coisinha tão cinza quanto o dia,, aconchegada em seu colo. Os olhinhos pequenos, as orelhas feridas, dava para ver as pulgas se movimentando a distancia. O pêlo molhado, ele tremia muito.

O levamos para casa. O primeiro banho quente tirou quilos de sujeira e pulgas. O embrulhei com uma toalha e o sequei. Preparei um cantinho para ele em uma pequena sala entre o meu quarto e do meu irmão. Ele comeu a ração molhada com leite como se fosse a primeira vez na vida que experimentava comida. E depois deitou, encolhidinho no meio das toalhas.

Esse era o China. Corpo branco, apenas o rabinho e as orelhas com duas manchas cinzentas. Os olhos orientais como os de Sortuda. Um miado alto, desesperado querendo atenção, carinho, colo, tudo ao mesmo tempo. Depois da primeira soneca, acordou e veio atrás de nós pela sala, já escalando e cheirando tudo.

Sortuda não gostou nada daquele moleque atrevido. Sentindo o cheiro de leite em suas tetas, tentou recuperar o contato com a mãe a qual havia sido separado e ganhou uns belos tapas por causa disso.

E ele voltou a dormir, dessa vez no quarto do meu irmão, que vivia chamando ele de feio, mas que também já havia se rendido às suas gracinhas.

No final da tarde, meu vizinho, o dono dos cães, me visitou. Não queria vê-lo, mas minha mãe insistiu. Ao chegar na porta ele estava segurando uma bolinha de pêlos. Olhos verdes, com manchas pretas, cinzas e brancas.

Disse que um outro vizinho estava com uma ninhada e ele foi até lá e pediu uma gatinha.

Júlia. O primeiro nome que me veio à mente. Minha mãe agradeceu e lá fui eu, marinheira de primeira viagem, colocar os filhotes juntos, afinal, eles iriam adorar, brincar muito, não é?

Não. Ao ver a gatinha, China, já se achando senhor da caminha de toalhas, quis bater em Júlia e mantê-la afastada da comida. E ela começou a chorar, sem entender nada. Tiraram ela da mãe e dos irmãos, para uma casa desconhecida e para apanhar? Tadinha!

Tadinha mesmo! Ainda erraram o sexo do coitado! Apesar de ser tricolor e menor que China mas da mesma idade, era um rapaizinho!
Charlie! O primeiro e unico macho tricolor que vi em minha vida.

No segundo dia, ja estavam brincando como velhos amigos. Charlie também tentou mamar em Sortuda e por algum motivo, foi aceito. E China, esperto, se enfiava no meio e aproveitava também.

Os meses passando, os bebês crescendo. Passavam horas brincando no jardim ou enchendo a paciencia de Sortuda, que andava curta naqueles dias proximos ao parto.

Quando soubemos que iriamos ter que nos mudar, China foi doado para a moça que até hoje trabalha conosco. Infelizmente ele, não castrado, sumiu pelas ruas quando ficou adulto.

Charlie permaneceu filho de Sortuda até os 7 meses de idade, um gatão lindo, enorme, com a feição permanente de filhote que ainda mamava na mãe adotiva já menor que ele. Ajudava Sortuda a cuidar dos filhotes, apesar das mordidas que levava nas orelhas e cauda quando eles testavam seus dentinhos.

Charlie se derretia todo em nossos braços. Quando se mudou para os fundos do consultorio do meu pai, junto com Duquesa, a ultima tirada das ruas, ainda mantinha sua doçura, apesar de não ter mais um lar.

Foi doado para uma tia minha. E, também, não castrado, desapareceu sem deixar vestigios.

Possivelmente nenhum dos dois ainda estão vivos. Mas espero que tenham tido vidas felizes, com a certeza de que sempre estarão em meu peito.

Dois meninos de personalidades unicas que a vida juntou em nossa familia felina.
Foram muito amados, sem duvidas. E o serão, para sempre.

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