22 de mar de 2010

zazá - o primeiro amor

1997.

Nossa mãe nunca permitiu que tivessemos bichos maiores do que passaros ou pintinhos.
Quando os pintinhos cresciam, eram mandados para casa de nossa avó e de lá iam para o galinheiro ou panela. Nós apenas fomos descobrir isso muitos anos depois :P

Em um desses meses tempestuosos em meu Estado, depois de uma noite de chuva, no dia seguinte acordei e fui para o quintal.

E para minha surpresa, uma linda gatinha andando alegremente pelo gramado. Não podia acreditar. Me aproximei lentamente e ela veio em minha direção.

Meu primeiro pavor foi minha mãe descobrir e mandá-la embora. Ela era tão fofinha! Devia ter uns 3 meses de idade. Estava meio suja, então resolvi ir banhá-la atrás do bar da piscina, pois se minha mãe fosse implicar, pelo menos não seria por causa da sujeira.

Foi um escandalo. Nunca havia banhado um gato na vida. Mas, tudo acabou bem e quando a levei para o outro lado para secar ao sol, minha mãe chegou e senti meu sangue gelar, ela já brigando - já está com essa gata no colo?!! Eu disse para o seu pai que não era uma boa ideia!

Meu pai e meu irmão haviam trazido-a desde a noite passada. A encontraram molhada, toda encolhida em um muro, quando meu pai foi buscar meu irmão do treino de natação. Ficaram morrendo de pena, pois ela miou pedindo ajuda e a trouxeram para casa, escondida de mim, pois sabiam que imediatamente iria me apaixonar e talvez minha mãe não permitisse.

Contra todas as possibilidades, Zazá ( batizada por causa da novela ) ficou. Ficou, cresceu e se tornou uma linda moça tigrada, dourada e com uns sinais brancos. O mais marcante deles, uma marca branca ao redor do pescoço. Os olhos verdes extremamente claros, grandes e curiosos.

Ela conseguiu amolecer até o coração duro da minha mãe e passou de gata de jardim para gata de sofá, ficando ao lado dela quase o tempo todo. Sentiamos inveja. E a melhor parte de nosso dia era chegar em casa e ver Zazá nos esperando na porta da cozinha, alegre por estarmos voltando.

Dizem que gatos atraem outros. O reinado de Zazá foi abalado pela vinda de Sortuda, uma linda escama de tartaruga, quase inteiramente branca, com manchas pretas e dourados em seu dorso. Sortuda MESMO. Foi arrastada por um carro na rua, que a fez perder todas as unhas, machucar o rosto e esfolar as patinhas. Apareceu em nossa casa em uma noite, morta de fome, gritando desesperadamente. Mas uma vez, o coração da minha mãe se compadeceu e ela ofereceu carne recem-moída.

Quando cheguei em casa da aula, Sortuda já nos tratava como donos, se esfregando, pedindo carinho e mais um pouco de comida. Zazá bufava, gritava e tentava espancar a outra gata. Sempre tão senhora de seu reino e donos, não admitia que aquela garota pequena, feia e suja entrasse em seu lar.

Demorou um mês para que ela se recuperasse. E Zazá se tornasse sua amiga e companheira, dormindo juntas no telhado ou na varanda, mas sem nunca deixá-la entrar em casa.

Naquela epoca não tinha acesso à internet. Não sabia quase nada de gatos, além do que lia na Cães & Cia. Vacinação se resumia a doses de anti-rabica de campanhas publicas e castração era algo totalmente desconhecido.

E aí, o tempo passou. E com ele, os cios das minhas duas meninas começaram.
Sortuda, por ser mais velha, ia para a rua e demorava dias para voltar, arrancando minhas lagrimas de preocupação. E depois, aparecia, como se nada tivesse acontecido.

Zazá, sempre uma lady, tratada dentro de casa, dormindo no sofá, não sabia o que fazer com aquele arroubo de hormonios. Ela batia nos gatos machos que iam atrás de Sortuda, defendendo seu territorio, mas ao mesmo tempo queria comportar-se de acordo com seus instintos.

Evitamos sua prenhez por 3-4 cios.
Infelizmente, em uma manhã, a natureza falou mais alto. Meu pai a soltou no jardim para passear, como sempre fazia.

E nessa manhã, meu irmão me acordou desesperado, chorando, dizendo que nossa gata estava morta.

Subi no muro e a vi, rodeada pelos pastores alemães do vizinho. Sem vida.
Sua mancha branca dolorosamente manchada de sangue.

Liguei para a casa ao lado e avisei do ocorrido, querendo que permitissem que buscassemos nossa filha.

O caseiro do vizinho jogou seu corpo na sarjeta de nossa casa e ficou fazendo piada. O pêlo sempre tão bem cuidado, todo sujo e coberto de sangue. O pescoço quebrado.

Ainda consigo me lembrar daquela manhã chuvosa, as memorias mais vividas de minhas lágrimas segurando o elefantinho de pelucia dela ( que tenho até hoje ) , até que nossos pais chegassem e soubessem do ocorrido, tentando confortar os filhos que haviam perdido seu primeiro bichinho.

Zazá foi enterrada na praia, para sentir eternamente o cheiro que tantas vezes ficava contemplando ao sentar na varanda à noite.

Ela foi a primeira de vários gatos de minha vida.
Com ela aprendi que os toques para um animal devem ser sempre suaves, respeitosos, assim como a voz e o amor, sempre crescente. E que ao retirar um gato da rua, na verdade, quem ganha é apenas você.

Não temos fotos dela, não temos nada além de lembranças, que para sempre ficarão vividas no coração de cada um de nós, pois ela nunca foi esquecida.

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