12 de mai de 2010

Henrique, Carlos Magno e Catarina ~ os primeiros amores resgatados

No petshop aqui perto de casa, onde já fiz amizade com todos pelos anos e animais decorrentes, há uma piada sobre minha pessoa toda vez que eu apareço com um novo bichinho resgatado entre os braços. Eles dizem que os bichos "sentem".

Depois de mais de 20 resgates em apenas 2 anos, eu comecei a acreditar nisso.

Arthur já estava morando aqui em casa. Toda a minha necessidade de dar e receber afeto estava preenchida plenamente por ele.

Eu estava voltando da academia, subindo a imensa ladeira da minha casa, quando escutei miados. Miados altos, desesperados.


Segui o som e, se arrastando pelo meio fio, um gatinho amarelo do tamanho da palma da minha mão, no máximo com 1 mês de idade. Ao olhar para o terreno, mais dois gatinhos, um tigrado e uma tricolorzinha, também gritando.


Antes que eu pudesse perceber, estava com os três em meus braço, levando-os para casa para ligar para uma amiga para saber o que fazer com eles. Minha mãe não me deixou entrar. O amarelinho chorava a plenos pulmões e Arthur estava dando um escandalo do lado de dentro, rosnando e bufando.
Os levei para o petshop onde a veterinária os examinou. Estavam com vermes e com principio de conjuntivite. Dei vermifugo, apliquei colirio e pedi uma hospedagem para eles. Ainda não conseguiam comer ração sólida, então ofereci patê, que comeram com vontade.

Com a barriguinha cheia, eles se acalmaram. Os coloquei em meu colo e fiquei fazendo carinho.


O loirinho, Henrique, como Henrique VIII. O tigrado marronzinho, Carlos Magno. E a tricolorzinha negra, Catarina, como Catarina de Aragão.


Fui para casa com o coração na mão, por tê-los que deixar em uma gaiola durante a noite, mas ao vê-los confortaveis um sobre os outros, não mais com medo e sem o perigo de serem mortos, me senti um pouco mais tranquila.

No dia seguinte, fui vê-los assim que o petshop abriu. Os alimentei e pedi para darem banho. Eles já haviam aprendido a usar a caixinha de areia. Eram tão mansinhos e já daquele tamanho, sabiam procurar colo e carinho, indicando que alguem simplesmente os havia colocado naquele terreno para morrer.
Mas, para bebês tão novinhos, ficar escutando latidos de cães estressados e secadores não era justo. Na epoca, fazia parte de uma ONG na minha cidade e uma das meninas concordou em ficar com eles até que estivessem com pelo menos 2 meses. Ela passava boa parte do tempo em casa e poderia dar um lar para eles.

E eu só os vi novamente depois de 1 mês, apesar de receber fotos e ter noticias quase todos os dias. Suas personalidade estavam ainda mais distintas.

Carlos Magno, calmo e adorador de colo, foi adotado assim que retornou para o pet, adotado por um dos rapazes que trabalha lá. Ficou grande, como uma oncinha e somente vi fotos do dia da castração dele. Apesar de ter custeado, estava operada na semana e não pude ir vê-lo, mas tenho certeza de que ele é feliz e bem tratado.
Henrique. Voluntarioso, corajoso e carinhoso à sua maneira. O lider da turma. Brincava com tudo, não se intimidava com os cães, não sabia o pequeno tamanho que possuia. Ele e Catarina cresceram no petshop por um mês, pois ninguem se interessava por eles, apesar da divulgação. Já estavam vacinados, vermifugados e eu iria pagar suas esterelizações. Comiam Royal Canin e estavam crescendo belos e saúdaveis. Em vez de estar indo para a academia, ou fazendo qualquer outra coisa naquele mês de julho, minha diversão era passar o dia inteiro no petshop com eles, vendo-os brincar.



Durante o tempo no pet, uma senhora havia me telefonado dizendo que queria Henrique, pois o antigo gato da casa, não-castrado e com acesso à rua, naquela crença que gato deve "passear" teria morrido. Logicamente, nunca retornei a ligação.


Uma pessoa que se diz protetora, mas que depois descobri que apenas se rotula, pois não faz nada na prática, disse que havia encontrado uma dona para ele. Ela o levou em uma hora que eu não poderia acompanhá-la e sempre que eu pedia noticias, ela respondia genericamente que ele estava bem. Na epoca de ser castrado, pedi para ir na casa da pessoa e conversar com a moça e ela disse que a pessoa que o havia adotado não queria castrá-lo sob o risco de botá-lo na rua se eu fosse lá. Tentei ligar para a pessoa, mas o telefone que ela havia me dado nunca atendia. E nunca mais tive noticias de Henrique.







Catarina. Meu algodão-doce negro, minha princesinha. Depois que Henrique se foi, ela permaneceu sozinha no pet. Pela manhã e tarde ficava solta sob o olhar atento das funcionárias, na esperança que alguem a visse e se apaixonasse por sua personalidade maravilhosa. Infelizmente, a maioria das pessoas ao ver sua pelagem perguntava qual era a doença que ela possuia. E eu, com toda a paciência, explicava que era uma pelagem como qualquer outra, que várias pessoas pagavam mais de 1000 por um persa daquela cor, que geralmente as gatas tricolores são extremamente meigas, brincalhonas e fieis. Mesmo eles testemunhando isso enquanto ela brincava ou dormia em meu colo, não era o suficiente para quererem adotá-la.

E ela permaneceu no pet. Por dias, semanas. Infelizmente a realidade bateu. Os gastos dela começaram a se tornar pesados e eu não possuia nenhuma ajuda. Já havia divulgado Catarina em TODOS os lugares possiveis e não conseguia entender como alguem não poderia se apaixonar tão perdidamente quanto eu.
Então, um dia, uma dona apareceu. Uma senhora que trabalhava como diarista em um dos apts próximo ao pet. Conversarmos durante dois dias, contei para ela todas as minhas angustias e preocupações. E ela levou minha menina. Seus brinquedos, sua ração, os pratinhos roxos, a caixinha de areia... a gaiolinha se tornara vazia, assim como um pedaço do meu coração. E pela primeira vez eu chorei lágrimas de protetora, que ama mas não pode adotar. Que cuida, mas tem que entregar, tirar do peito e esperar todos os dias pelo melhor, que o bem-estar continue para sempre.

Catarina retornou para os meus braços dois meses depois. Veio vacinar com a veterinária do Arthur. Estava feliz, me reconheceu e mesmo diante dos ataques de ciume de Arthur, ela apenas tentou brincar com ele, indiferente à Ira daquele ser tão grande e dono da casa.
Ela dormiu na minha cama até as 16hrs, quando fui entregá-la para a sua dona do outro lado da rua. Se eu soubesse que aquela seria a ultima vez que a veria....
Em janeiro eu havia feito uma cirurgia, mas prometi à dona dela que iria castrá-la assim que ela atingisse a idade adequada. Passei dias ligando para a senhora até que o dia da cirurgia chegou e depois de 30 ligações, ela atendeu dizendo que Catarina havia sumido misteriosamente.
E durante todo o decorrer do dia, ela não havia aparecido. E eu saí do petshop arrasada, chorando, lamentando pelo destino da minha menina, nas mesmas ruas e sujeita aos mesmos perigos que eu a havia tirado e agora, ainda pior, colocando mais filhotes no mundo.
Henrique, Catarina e Carlos Magno.
As primeiras provas de que um coração feliz por um animalzinho pode-se dividir em quantos pedaços for necessário para acomodar outros que necessitam. Desde a adoção deles meus criterios para adotantes se tornaram muito mais rigidos. Infelizmente, não o bastante para evitar completamente algumas tristezas, mas o suficiente para assegurar um numero maior de finais felizes.
É para isso que animais entram em nossas vidas. De tantas pessoas que andam por minha rua, eu os achei, os miados deles me alcançaram. Me tornar uma protetora melhor e olhar para a realidade, além da vida feliz que o Arthur possui. Me fazer querer dar a todos que cruzam meu caminho o que o Arthur têm. Essa foi a missão que eles deixaram para mim.

4 comentários:

  1. Otávia...é difícil mesmo. Quase choro lendo seu post. Se não tivesse no trabalho com certeza o faria. A vida de protetora é assim, mas concordo com você que devemos ser muito cuidadosas quando o assunto é adoção. Também aprendi e cresci muito depois que me deixei conquistar pelos gatos e tenho a certeza que ainda aprenderei muito.
    bjs...um especial no Arthur!

    ResponderExcluir
  2. Infelizmente é assim mesmo. Há muitas pessoas que dizem gostar de animais, mas quando se vê, criam lá fora, no quintal, e ainda dizem:
    - É bicho, se vira, a natureza se encarrega!
    E assim vamos nos machucando, nos desgostando da raça humana:
    "Quanto mais conheço os homens, mais gosto de meus gatos."

    ResponderExcluir
  3. Você é uma pessoa abençoada. :)

    ResponderExcluir
  4. Continue assim.
    E tenha sim muitos critérios para escolha dos "pais" dessas coisitas lindas.
    Comovente seu post.

    ResponderExcluir

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.