29 de set de 2011

Veterinários x Abandono

Com os 5 anos do Arthur se aproximando, faço algumas reflexões desde que comecei, com a adoção dele, a cuidar de animais abandonados. Uma delas é que eu nada poderia ter feito sem a ajuda e competência dos veterinários que cruzaram o meu caminho e cuidaram desses bichos que resgatei.

Logicamente que em uma cidade como São Luís, não foi fácil encontrar esses profissionais.

Existiu aquela que jurava curar Leishimaniose, a que aplicava mensalmente anticoncepcional em um gato macho de uma família humilde e aquele que diz que castração é maldade. E, como esquecer daquele, que ao me ver com uma gatinha para adoção em uma clinica, pedir para dar a gata para ele pois o dele havia morrido atropelado por ter ido para as ruas?

Como em toda categoria, existem excelentes e péssimos profissionais.

Mas enquanto mãe do Arthur e protetora, valorizo imensamente os veterinários humanos, éticos, atualizados e acima de tudo, socialmente responsáveis.

Não irei entrar no mérito de valores de consultas e procedimentos. Infelizmente aqui em São Luís não existe nada gratuito ou a baixo custo de fácil acesso, como na maioria das capitais do Brasil onde castração e consultas em preços mais em conta e com qualidade são oferecidas à população, mas também não vejo nisso uma razão para tanta reclamação para com os profissionais e clinicas. É algo muito simples, bicho é luxo. Não quer gastar? Não tenha um animal.

Se eu não tivesse dinheiro para ajudar animais de rua, simplesmente não faria e nem sequer teria o meu próprio. Mas o que não dá é ficar reclamando para um profissional – principalmente os bons – que passou anos estudando, pagando transporte e livros caros na faculdade, que investiu em uma especialização e em materiais de qualidade para atender seu animal da melhor maneira possível.

Cada veterinário oferece seus serviços ao preço que acredita ser o mais adequado para sua realidade e os gastos que tem para exercer sua profissão. Cabe aos clientes fazer uma pesquisa de preço e escolher o que cabe em seu orçamento.

Minha principal preocupação com a veterinária ludovicense nos dias de hoje é como ainda existe um grande número de profissionais que ignora o seu papel social de promoção da guarda responsável e acaba, direta ou indiretamente, contribuindo para o aumento do abandono.

Uma coisa que me deixa abismada é a falta de iniciativa de uma grande parte dos veterinários para falar de castração. Conheço muita gente que sempre teve bichos e mesmo levando-os ao veterinário com regularidade, desconheciam totalmente o procedimento e seus benefícios. Acredito fortemente que a castração deveria vir na primeira conversa com um novo cliente ao adquirir um animal, assim como alimentação adequada, vacinas e outras particularidades de manejo. Felizmente nos dias de hoje, onde guarda responsável está cada vez mais disseminada, muitas vezes o proprietário se informa e compartilha a idéia com o veterinário.

Nesse primeiro contato, o bom médico responde as duvidas do proprietário, esclarecendo os prós e contras do procedimento de forma clara e realista. Realiza exames baseados nas características do animal a ser operado, para diminuir o máximo possível os poucos riscos existentes. Na grande maioria das vezes, o animal é castrado e o dono, satisfeito, espalha os benefícios para aqueles ao seu redor, criando um circulo do bem e de responsabilidade.

O veterinário antiquado e retrogrado coloca a castração como procedimento a ser feito somente depois do primeiro cio ou primeira cria, como desnecessário, até mesmo como maldade e aflige ainda mais o proprietário, já não muito bem informado, fazendo com que o mesmo, além de não castrar seu animal, ainda dissemine preconceitos errôneos quanto ao procedimento.

Mas qual a responsabilidade que esse veterinário assume, quando o cão ou gato foge por causa de fêmeas no cio, é atropelado, morre nas ruas ou se torna agressivo, marcando o território com urina o tempo inteiro? Qual a responsabilidade que esse veterinário terá com as fêmeas no cio, que sangram e gritam durante dias, que podem ter piometra e tumores de órgão sexuais, que também irão fugir, emprenhar e trazer filhotes para uma casa onde o dono não está disposto a doá-los com responsabilidade? E uma sucessão de abandonos começa aí.

E ao invés de pagar R$150 para castrar uma gata, o dono responsável – mas ingênuo – irá gastar R$1000 para resolver uma piometra. Irá gastar MUITO para remendar os ossos quebrados do animal que fugiu e foi pego por um carro, que foi envenenado pelo vizinho atrás de uma fêmea no cio e para cuidar e vacinar os filhotes nascidos pela negligência do proprietário e veterinário que não castrou o animal.

E quem irá receber para isso? O mesmo veterinário que foi contra a castração.

São fatos tão simples que chegam a ser tolos. Na cidade de SP, onde castração tornou-se obrigatória e existem centros cirúrgicos gratuitos espalhados pela cidade, os melhores veterinários são aqueles que fazem um grande número de cirurgia de castração durante o mês, pois estes profissionais, por lidarem com uma enorme demanda, devem fazê-lo de forma rápida e de qualidade, para que as pessoas confiem na castração. Quanto maior o número de procedimentos, maior a prática, menor a incisão e mais rápida, sem preocupações e falhas ( como um ovário remanescente ) é a recuperação do animal.

Não confio e evito ao máximo indicar profissionais que não possuem animais castrados e que são ignorantes quanto aos benefícios da castração, tanto para a saúde do animal, como ferramenta contra o abandono. Um bom veterinário não necessita ganhar dinheiro em cima do sofrimento alheio.

Do mesmo jeito que um bom veterinário não se envolve em criação de fundo de quintal e/ou reprodução indiscriminada, que em curto, médio e longo prazo, resultam grande parte dos animais negligenciados e abandonados.

De acordo com uma pesquisa de 2010 da SPCA americana, 9 entre 10 filhotes nunca encontra um bom lar onde possam ser tratados com dignidade até o fim de suas vidas.

A destruição da maioria de raças de cães e gatos em São Luís não é segredo. Basta passar algumas horas nos petshops mais populares em um dia de sábado. Dificilmente você vê um animal puro e 100% conformado. Os animais de estimação de grande parte dos ludovicenses são resultado da reprodução irresponsável e criação de fundo de quintal, gente que tem uma fêmea ou macho e encontram um ser ganancioso, colocando os animais para cruzar e tirar os trocados.

Às vezes a pessoa é somente ignorante e não tem intenção de explorar economicamente os filhotes, querendo apenas um “netinho” , mas levando em consideração que não nascerá só um e o resto será dado ou vendido indiscriminadamente, a pessoa acaba sendo responsável por filhotes sem destino certo.

A maioria dos criadores de fundo de quintal é resultado de outro criador de fundo de quintal. É a pessoa que pagou caro por um mestiço, foi feita de besta e ainda se acha no direito de faturar em cima do seu animal. Reproduzem qualquer coisa que pareça um com o outro, sem fazer exames, sem checar problemas de saúde ou de comportamento, sem ao menos saber coisas básicas do bicho.

Também há aqueles que até tem um animal com pedigree, mas que vieram de canis ou gatis não tão socialmente responsáveis, vendidos sem castração. O ponto aqui não é se o animal é um bom reprodutor, mas o direito dele de não ser forçado a passar pelo stress do cio, cruza e gestação e ter seus filhotes vendidos e colocados em mãos alheias, com destinos incertos.

E onde criadores de fundo de quintal se conhecem? Justamente em clinicas veterinárias. E onde expõem a vontade de reproduzir seu mestiço e onde colocam cartazes para vender os filhotes, isso se não os coloca em um cercado imundo, sem água, comida e espaço para se movimentarem? Em clinicas veterinárias.

Algumas pessoas acham erroneamente que o animal tem que reproduzir pelo menos uma vez, mesmo nos dias de hoje desconhecem castração, então por que o veterinário não fala a respeito disso, quando a pessoa compartilha o desejo de reproduzir o pet, ao invés de ser cúmplice dessa prática? Como alguém que divulga guarda responsável, já mudei opinião de muita gente, apenas com conversas, exemplos e apresentando fatos. Veterinários contra a reprodução indiscriminada e exploração comercial tem um poder imenso, se bem utilizados.

E pior do que um veterinário contra castração é aquele que ainda é criador de fundo de quintal, explora economicamente os animais que ele JUROU cuidar e tratar com dignidade. Só digo uma coisa: QUE NOJO.

Nojo de profissional que precisa de filhotes para arrumar uma grana, sinal que competência e pacientes andam faltando. Logicamente existem veterinários sérios e que mantém criações idôneas, registradas, com controle de ninhadas, contratos de venda para assegurar o bem estar do animal, filhotes vendidos castrados, nascidos e comercializados de maneira correta, mas aqui em São Luís? Não conheço nenhum.

Visitei uma clinica veterinária em SP afiliada ao CCZ. Além da obrigatoriedade da castração, também é proibido a venda de filhotes que não sejam de gatis e canis registrados. Bem na entrada existia um cartaz: CRIAÇÃO DE FUNDO DE QUINTAL É CRIME! Para denunciar, ligue. Imagina que lindo seria isso aqui em São Luís? Mas enquanto as coisas boas não chegam, senhores veterinários, proíbam em suas clinicas e petshops cartazes anunciando ninhadas e não aceitem expor filhotes advindos dessa corja.

Tentem mudar a mentalidade dos donos e impedir que mais uma bola de neve de reprodução indiscriminada se torne ainda maior. Logicamente que bom senso não atinge a todos, se não colocarem no seu mural e se não castrarem o animal, irão reproduzi-lo de qualquer forma, irão vender os filhotes em outro lugar, mas será que não vale a consciência tranqüila de não ter sido cúmplice desse triste comércio de vidas?

Sem a ajuda da sociedade, em todas as suas esferas, nunca será possível diminuir e/ou exterminar os índices alarmantes de animais vitimados no mundo inteiro. Protetores de animais e donos responsáveis podem fazer muito, mas na parte prática, veterinários conscientes são necessários.

Não espero que nenhum veterinário abrace o serviço voluntário com animais abandonados como protetores, pois isso para nós é, apesar não isento de custos, uma opção.

Veterinários possuem famílias, contas para pagar, cursos e livros a serem adquiridos, principalmente em um país como o nosso que nada é bem visto se não for agregado em valores. O Médico Veterinário tem todo o direito de ser remunerado justamente e ser valorizado pelos bons serviços que prestam a uma comunidade.

E é nas mãos deles que reside uma força ainda maior para a conscientização em relação a castração e guarda responsável.


O diploma, além do titulo e certificação do curso, deveria trazer a todos os veterinários o desejo de garantir um futuro seguro e mais digno para os animais que passam por seus cuidados.

( texto dedicado a todos os meus queridos amigos veterinários, de perto ou de longe, que exercem seu papel com competência e humanidade contribuindo para um amanhã melhor )


2 comentários:

  1. Olá, estou seguindo seu blog! Sou dona de 2 cães e um hamster e os amo mais do que tudo!
    Adoro ter animais, cuidar deles e dar muito carinho :)

    Não sabia que aqui em São Luís havia um blog assim, adorei! :*

    ferreirama.blogspot.com

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  2. Muito bom amiga, é isso mesmo..... Passei por tantos veterinarios com meus bichos e nunca nenhum perguntou, ah é castrado? vai castrar quando? OLha cuidado pode acontecer isso e aquilo.

    Se nao fosse a internet e tantos amigos queridos que fiz nesses anos todos, ainda estaria achando ate hj que animal precisa tirar uma cria pra ser feliz rsrsrs

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