16 de mai de 2010

Ísis ~ o primeiro amor compartilhado

Na universidade federal da minha cidade, UFMA, ja é comum vermos vários animais serem abandonados. Animais mansos, bonitos e meigos, que simplesmente não mereciam ter parado ali. Além da fome que sentem, são muitas vezes vitimas de agressões por parte de alguns funcionários e alunos, como se o abandono já não fosse castigo suficiente.

Durante os meus dois anos e meio de curso de Artes lá, por várias vezes alimentei os bichos que se aglomeravam perto das pessoas comendo, implorando qualquer migalha. Gastava em lanches e oferecia a eles, além de agua e com certeza devo ter sido chamada de louca muitas vezes por causa disso.

Após deixar o curso, minha amiga e vizinha começou a estudar Biologia lá. E o prédio dela tambem possuia vários animais residentes e abandonados.
Um dia ela me falou de uma gata muito boazinha que apareceu lá com filhotes e minha amiga queria ajudá-la.

Lá fomos na UFMA e ela veio nos ver. Era uma siamesa mestiça, tricolorzinha, cheia de lindas manchas chocolates e caramelizadas e belissimos olhos azuis, extremamente fofa. Possuia dos filhotinhos, malhados de preto e branco. Mesmo diante de sua desnutrição, ainda os amamentava. Ainda tentamos levá-los junto com a mãe, mas, ariscos, não deixaram que os tocassemos.

Levamos a gatinha para o veterinário. Iria castrar, receber vermifugos, vacinas e enquanto isso, procurariamos uma nova casa.
Infelizmente os problemas começaram a aparecer após a cirurgia. Tamanha era a desnutrição de Ísis, que, ao começar a ser alimentada, seu intestino e estomago não acostumados a comida regularmente, começaram a dar problemas. Primeiro, uma séria constipação e depois, uma hernia, que a levou para a sala de cirurgia novamente, aumentando seus dias na clinica.
Enquanto isso, a sua divulgação estava a todo vapor, mas infelizmente, ninguem ainda havia se manifestado. E até hoje, é muito dificil encontrarmos donos para nossos gatinhos em um curto periodo de tempo. As pessoas têm um preconceito que eu simplesmente não entendo. Preconceito com cor, idade, sexo. Até mesmo quando dizem que não querem fêmeas e argumentamos que estão castradas, que não traram problema, há pessoas que, envoltadas em ignorancia, não acreditam em fatos cientificos concretos.
Quase um mês se passou e ela continuava na gaiola da clinica. Os gastos aumentando e ela, tão alegre e carinhosa, enclausurada. Minha amiga considerou levá-la de volta à universidade, apesar de estarmos de coração partido com essa possibilidade. Ela merecia algo melhor, definitivamente.

E quando achavamos que as esperanças estavam perdidas, um adotante apareceu. Era cliente e morava perto da clinica veterinária em que ela estava.
Minha amiga foi ate lá apresentá-la a ele e, depois de tanto tempo de dificuldades, ela havia encontrado um lar.

Ísis foi morar em um apartamento com dois irmãos mais velhos, um deles também resgatado das ruas. O adotante tornou-se nosso amigo e compartilhava conosco as fotos de sua felicidade em familia, o quanto ela estava engordando e cada dia mais linda.
Mas, nunca soubemos na verdade qual era a idade e o quanto a vida na rua e os problemas de saúde poderiam ter diminuido sua expectativa de vida.

Então, em um dia, ela simplesmente não acordou mais. Os irmãos acordaram o pai, com miados tristes e o levaram até ela.
Ísis se foi , serenamente, assim como nós a conhecemos. E ela pôde experimentar todo o amor e aconchego que lhe fora negado por tanto tempo antes de minha amiga tê-la encontrado.
Depois da Ísis começamos, sem perceber, uma parceria pelo bem estar desses bichinhos e nossas mãos unidas tiveram muito mais força para darmos a eles finais felizes. A convivência com ela e a saudade fizeram com que seu adotante acolhesse mais dois gatinhos, irmãos, conosco e o lar dele se encheu de amor, mais uma vez.

Todos os animais merecem uma oportunidade de serem tratados com dignidade e amor, não importando sua cor, sexo ou as circunstancias que passaram.

Minha amiga olhou para onde muitas pessoas haviam simplesmente ignorado e virado as costas. A cada gatinho salvo, suas palavras de sabedoria, mesmo em momentos dificeis, meu respeito se torna maior assim como meu carinho para com ela. Eu gostaria que chegasse o dia em que maus-tratos e abandono não mais ocorressem, mas sinto-me feliz por tê-la ao meu lado, nos meus resgates e nos dela, ajudando a fazer de nossa realidade, um pouco menos cruel.


Pela Ísis e todos os nossos "filhos" e amores compartilhados, fica aqui minha gratidão.







Um comentário:

  1. Infelizmente estas histórias de abandono crescem, ao invés de diminuir. Incrível, hoje temos acesso a tudo, castração a baixo custo, mutirões, coisas que sequer imaginamos um dia existirem, pois sim, hoje existem mas ainda é comum ninguém fazer nada pelos bichinhos, apenas o abandono, o desprezo.
    Assim como você, torço por um "despertar" desta desumanidade.
    Beijos, boa semana para ti e para seus resgatinhos todos.

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