No petshop aqui perto de casa, onde já fiz amizade com todos pelos anos e animais decorrentes, há uma piada sobre minha pessoa toda vez que eu apareço com um novo bichinho resgatado entre os braços. Eles dizem que os bichos "sentem".
Depois de mais de 20 resgates em apenas 2 anos, eu comecei a acreditar nisso.
Arthur já estava morando aqui em casa. Toda a minha necessidade de dar e receber afeto estava preenchida plenamente por ele.
Eu estava voltando da academia, subindo a imensa ladeira da minha casa, quando escutei miados. Miados altos, desesperados.
Segui o som e, se arrastando pelo meio fio, um gatinho amarelo do tamanho da palma da minha mão, no máximo com 1 mês de idade. Ao olhar para o terreno, mais dois gatinhos, um tigrado e uma tricolorzinha, também gritando.
Antes que eu pudesse perceber, estava com os três em meus braço, levando-os para casa para ligar para uma amiga para saber o que fazer com eles. Minha mãe não me deixou entrar. O amarelinho chorava a plenos pulmões e Arthur estava dando um escandalo do lado de dentro, rosnando e bufando.
Os levei para o petshop onde a veterinária os examinou. Estavam com vermes e com principio de conjuntivite. Dei vermifugo, apliquei colirio e pedi uma hospedagem para eles. Ainda não conseguiam comer ração sólida, então ofereci patê, que comeram com vontade.
Com a barriguinha cheia, eles se acalmaram. Os coloquei em meu colo e fiquei fazendo carinho.
Fui para casa com o coração na mão, por tê-los que deixar em uma gaiola durante a noite, mas ao vê-los confortaveis um sobre os outros, não mais com medo e sem o perigo de serem mortos, me senti um pouco mais tranquila.
No dia seguinte, fui vê-los assim que o petshop abriu. Os alimentei e pedi para darem banho. Eles já haviam aprendido a usar a caixinha de areia. Eram tão mansinhos e já daquele tamanho, sabiam procurar colo e carinho, indicando que alguem simplesmente os havia colocado naquele terreno para morrer.
Mas, para bebês tão novinhos, ficar escutando latidos de cães estressados e secadores não era justo. Na epoca, fazia parte de uma ONG na minha cidade e uma das meninas concordou em ficar com eles até que estivessem com pelo menos 2 meses. Ela passava boa parte do tempo em casa e poderia dar um lar para eles.
E eu só os vi novamente depois de 1 mês, apesar de receber fotos e ter noticias quase todos os dias. Suas personalidade estavam ainda mais distintas.
Henrique. Voluntarioso, corajoso e carinhoso à sua maneira. O lider da turma. Brincava com
tudo, não se intimidava com os cães, não sabia o pequeno tamanho que possuia. Ele e Catarina cresceram no petshop por um mês, pois ninguem se interessava por eles, apesar da divulgação. Já estavam vacinados, vermifugados e eu iria pagar suas esterelizações. Comiam Royal Canin e estavam crescendo belos e saúdaveis. Em vez de estar indo para a academia, ou fazendo qualquer outra coisa naquele mês de julho, minha diversão era passar o dia inteiro no petshop com eles, vendo-os brincar.
Durante o tempo no pet, uma senhora havia me telefonado dizendo que queria Henrique, pois o antigo gato da casa, não-castrado e com acesso à rua, naquela crença que gato deve "passear" teria morrido. Logicamente, nunca retornei a ligação.
E ela permaneceu no pet. Por dias, semanas. Infelizmente a realidade bateu. Os gastos dela começaram a se tornar pesados e eu não possuia nenhuma ajuda. Já havia divulgado Catarina em TODOS os lugares possiveis e não conseguia entender como alguem não poderia se apaixonar tão perdidamente quanto eu.
Então, um dia, uma dona apareceu. Uma senhora que trabalhava como diarista em um dos apts próximo ao pet. Conversarmos durante dois dias, contei para ela todas as minhas angustias e preocupações. E ela levou minha menina. Seus brinquedos, sua ração, os pratinhos roxos, a caixinha de areia... a gaiolinha se tornara vazia, assim como um pedaço do meu coração. E pela primeira vez eu chorei lágrimas de protetora, que ama mas não pode adotar. Que cuida, mas tem que entregar, tirar do peito e esperar todos os dias pelo melhor, que o bem-estar continue para sempre.
Ela dormiu na minha cama até as 16hrs, quando fui entregá-la para a sua dona do outro lado da rua. Se eu soubesse que aquela seria a ultima vez que a veria....
Em janeiro eu havia feito uma cirurgia, mas prometi à dona dela que iria castrá-la assim que ela atingisse a idade adequada. Passei dias ligando para a senhora até que o dia da cirurgia chegou e depois de 30 ligações, ela atendeu dizendo que Catarina havia sumido misteriosamente.
E durante todo o decorrer do dia, ela não havia aparecido. E eu saí do petshop arrasada, chorando, lamentando pelo destino da minha menina, nas mesmas ruas e sujeita aos mesmos perigos que eu a havia tirado e agora, ainda pior, colocando mais filhotes no mundo.
As primeiras provas de que um coração feliz por um animalzinho pode-se dividir em quantos pedaços for necessário para acomodar outros que necessitam. Desde a adoção deles meus criterios para adotantes se tornaram muito mais rigidos. Infelizmente, não o bastante para evitar completamente algumas tristezas, mas o suficiente para assegurar um numero maior de finais felizes.
É para isso que animais entram em nossas vidas. De tantas pessoas que andam por minha rua, eu os achei, os miados deles me alcançaram. Me tornar uma protetora melhor e olhar para a realidade, além da vida feliz que o Arthur possui. Me fazer querer dar a todos que cruzam meu caminho o que o Arthur têm. Essa foi a missão que eles deixaram para mim.