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11 de jun. de 2012

Quando o pesadelo se repete

Um dos inumeros motivos que me fez parar com doação responsável foi a historia de terro que alcançou o Rafael.

Ele foi adotado por uma familia que parecia ideal e que 3 dias depois negou atendimento veterinário e o deixou morrer envenenado, a 5 minutos de uma clinica. Eu o escutei morrendo do outro lado do telefone. E esse foi um dos piores dias da minha vida.



O Miguel foi doado antes do Rafael. Para uma moça com um filho, que morava em apartamento seguro, afinal, tinha uma criança. Ela o escolheu, assinou o termo de responsabilidade. Passou esses ultimos 2 anos sem dar noticias, mas isso é uma coisa comum. E eu não me importo, desde que o animal esteja bem.

Na semana passada, subitamente recebo um email dela dizendo que o Miguel estava morando na casa da mãe, com acesso à rua e foi atropelado, resultando em fraturas sérias. Ela "não tinha" dinheiro para custear o tratamento sugerido pelo veterinário e queria que eu fizesse algo. Passou até os valores.
E disse que ia passar mastruz nas fraturas, pois era um remedio comum no interior. Me deixou também um telefone de contato.

Tentei falar com essa moça de todas as formas. Liguei 60 vezes para o celular, ela rejeitava as ligações. Mandei emails, ela não retornou nenhum deles. Liguei para o telefone residencial que estava em sua ficha de adoção, a pessoa disse que não havia ninguem com aquele nome por lá.

Tentei alertá-la quanto à crueldade de seus atos, de negar atendimento veterinário a um animal e o quanto mastruz é toxico para gatos. E ela nada respondeu.

Hoje começo meu dia com um email dela, contando o que aconteceu.

Eu fico me perguntando que diabos de mundo é esse que permite que um animal sofra assim.
Imagino o olhar de dor que o Miguel deve ter dado a essa mulher e ela sequer se compadeceu.


Doei um animal castrado, vacinado e saudável.
Um filhote com todo o amor do mundo para oferecer e ele acaba assim.


Fazemos tudo de melhor e as mascaras caem e aqueles que deveriam
amá-los, se transformam em monstros.


Miguel e Rafael, meus anjos dourados, agora estão juntos.
Eu espero que algum dia possam perdoar as pessoas que falharam com eles.


26 de set. de 2010

Miguel e Rafael, os amores anjos.


Passei meses sem conseguir olhar para as fotos do Rafael.

Meu coração acelerava e eu perdia o ar. Cheguei a ir para o hospital quando ele faleceu.

Para muitos pode ser apenas um gato.

Para mim, era uma criança que partiu cedo demais, sem conseguir experimentar a felicidade que merecia.

Ele faria um ano de idade.

Então, essa foi minha forma de homenageá-lo.



24 de ago. de 2010

Alexandre, o amor que caiu do céu



Existem gatos que, devido ao abandono, acabam retornado ao estado selvagem de seus ancestrais.

A mãe do Alexandre foi uma delas. A primeira vez que a vi, ela estava caçando morcegos da casa ao lado, com a habilidade de uma leoa nas planices africanas e esmagava os crânios deles ruidosamente, antes de sumir por dentro das telhas.

Aquilo me horrorizou imensamente, pois nunca havia visto uma gata fazer algo assim. Pensei no quanto ela estaria faminta e desesperada para ter que se alimentar daquele jeito e comeceia levar ração para ela.

Foi quando percebi que não estava sozinha. À noite escutavamos miados de filhotes, miados altos e doídos, chamando pela mãe.

Até que uma noite, quando fui pegar um suco na geladeira, o encontrei.

Um gatinho minusculo, extremamente sujo e com o nariz ferido, ficou preso dentro da copa e tentava subir as paredes ao me ver. Nunca havia visto pessoas. E havia algo estranho com seus olhos.

Pedi ajuda para a outra professora e para a secretária, uma toalha ou pano para enrolá-lo e poder levá-lo para casa. Ninguem me ajudou e ainda ficaram dizendo que eu estava louca de tentar ajudar um bicho daqueles.

Infelizmente tive que soltá-lo, mas aquela não seria a ultima vez que nos veríamos.

Alguns dias depois o encontrei correndo sem rumo pelo quintal, batendo a cabeça nas paredes.
E confirmei que havia algo de muito errado ali.

Consegui agarrá-lo e o embrulhei na blusa que usava. O levei para o petshop proximo, onde ele tomou um bom banho e finalmente foi capaz de comer algo.

A veterinária o examinou. Ele havia sofrido algum tipo de trauma e não enxergava direito. Como a mãe ainda estava no telhado, acredito que tenha o rejeitado e por isso ele estava definhando.


Era um bebê de aproximadamente 4 meses, branquinho e com o rabo tigrado e belos olhos azuis.

Falei com minha amiga e ela disse que podia abrigá-lo por alguns dias, até que ele ficasse um pouco mais forte. O batizei de Alexandre, o nome mais forte e poderoso que consegui pensar, pois ele precisava de toda a sorte o possivel para reverter aquele quadro.

Demos vermifugo e compramos uma royal canin filhotes ( a melhor ração para recuperar gatinhos desnutridos ) e leite de soja, que ele devorou.


Por causa de seu problema de visão, ele sempre rosnava para nós, mas no final daquele mesmo dia, ja conseguia destinguir nosso cheiro e até começou a ronronar!


Já havia começado a campanha para arrumar um lar para ele. Apesar da beleza, era um gatinho assustado e ainda estava feio. Fiquei imaginando quem iria ter a paciencia de colocá-lo no colo, apesar dos rosnados e fazê-lo confiar nas pessoas, assim como eu.


Uma pessoa do grupo que eu faço parte se interessou por ele, no segundo dia e após trocarmos emails e conversarmos ao telefone, veio buscá-lo.

O vacinei contra raiva, repeti o vermifugo e dei mais um banho. Coloquei uma coleirinha. Ele já estava bem mais sociavel, se compararmos com a ferinha selvagem que eu havia conhecido 48hrs atrás e até sua aparencia já estava bem melhor.


Combinei de castrá-lo assim que estivesse mais forte e o rapaz veio aqui buscá-lo.

Um mês depois, em uma troca de emails, o rapaz me pede ajuda para duas gatas que havia pego, pois ja tinha outros animais e nao poderia ficar com elas se estivessem prenhas.

Consegui cirurgias mais em conta com veterinários amigos e até paguei de uma das gatas, mas ele teria que pagar a cirurgia de Alexandre na epoca ideal.

Duas semanas depois, ele me encontra e diz, na maior naturalidade, que Alexandre havia subido em uma arvore, caido do outro lado da rua e desaparecido. Fiquei desesperada e imaginando um gato cego perdido. Ele estava forte e gordinho, mas mesmo assim, ainda possuia uma deficiencia, além do medo de estar fora de sua casa.

Pedi fotos recentes para o rapaz, mas ele nunca as enviou.
Telefonei querendo marcar uma busca pelas ruas, espalhar cartazes, mas ele nunca me atendeu.
Fui até a rua da casa dele e vi que não havia possibilidade de Alexandre ter subido na pequena arvore e ter acertado uma saída pelo muro alto. Rodei pelas ruas, mas sem sucesso.
Quando o coloquei contra a parede, ele me tratou mal, dizendo para não procurá-lo mais, que não queria mais falar sobre PORCARIA de gato algum.

O fiz devolver o dinheiro para ajudar uma cadela necessitada, mas nunca realmente soube o que aconteceu com Alexandre.

Fico pensando o que leva uma pessoa a fazer parte de um grupo de proteção de animais ( que ele foi afastado pelo ocorrido ) , pedir para adotar um animal e agir dessa maneira.

Ele me tirou uma criança indefesa, dos meus braços, para um destino incerto, por pura irresponsabilidade.

Além de Alexandre, ainda consegui resgatar duas de suas 3 irmãzinhas. Elas fizeram um ano em julho de 2010. Ele tambem o faria.

Ele sobreviveu a um nascimento em condições precárias, se alimentar de morcegos, uma queda de telhado e à fome, antes de eu encontrá-lo.

Sei que é mais um consolo pra mim mesma e que é uma possibilidade remota, mas espero que ele esteja bem e que tenha encontrado uma pessoa que realmente zele por ele e o proteja dos perigos do mundo.

16 de mai. de 2010

Ísis ~ o primeiro amor compartilhado

Na universidade federal da minha cidade, UFMA, ja é comum vermos vários animais serem abandonados. Animais mansos, bonitos e meigos, que simplesmente não mereciam ter parado ali. Além da fome que sentem, são muitas vezes vitimas de agressões por parte de alguns funcionários e alunos, como se o abandono já não fosse castigo suficiente.

Durante os meus dois anos e meio de curso de Artes lá, por várias vezes alimentei os bichos que se aglomeravam perto das pessoas comendo, implorando qualquer migalha. Gastava em lanches e oferecia a eles, além de agua e com certeza devo ter sido chamada de louca muitas vezes por causa disso.

Após deixar o curso, minha amiga e vizinha começou a estudar Biologia lá. E o prédio dela tambem possuia vários animais residentes e abandonados.
Um dia ela me falou de uma gata muito boazinha que apareceu lá com filhotes e minha amiga queria ajudá-la.

Lá fomos na UFMA e ela veio nos ver. Era uma siamesa mestiça, tricolorzinha, cheia de lindas manchas chocolates e caramelizadas e belissimos olhos azuis, extremamente fofa. Possuia dos filhotinhos, malhados de preto e branco. Mesmo diante de sua desnutrição, ainda os amamentava. Ainda tentamos levá-los junto com a mãe, mas, ariscos, não deixaram que os tocassemos.

Levamos a gatinha para o veterinário. Iria castrar, receber vermifugos, vacinas e enquanto isso, procurariamos uma nova casa.
Infelizmente os problemas começaram a aparecer após a cirurgia. Tamanha era a desnutrição de Ísis, que, ao começar a ser alimentada, seu intestino e estomago não acostumados a comida regularmente, começaram a dar problemas. Primeiro, uma séria constipação e depois, uma hernia, que a levou para a sala de cirurgia novamente, aumentando seus dias na clinica.
Enquanto isso, a sua divulgação estava a todo vapor, mas infelizmente, ninguem ainda havia se manifestado. E até hoje, é muito dificil encontrarmos donos para nossos gatinhos em um curto periodo de tempo. As pessoas têm um preconceito que eu simplesmente não entendo. Preconceito com cor, idade, sexo. Até mesmo quando dizem que não querem fêmeas e argumentamos que estão castradas, que não traram problema, há pessoas que, envoltadas em ignorancia, não acreditam em fatos cientificos concretos.
Quase um mês se passou e ela continuava na gaiola da clinica. Os gastos aumentando e ela, tão alegre e carinhosa, enclausurada. Minha amiga considerou levá-la de volta à universidade, apesar de estarmos de coração partido com essa possibilidade. Ela merecia algo melhor, definitivamente.

E quando achavamos que as esperanças estavam perdidas, um adotante apareceu. Era cliente e morava perto da clinica veterinária em que ela estava.
Minha amiga foi ate lá apresentá-la a ele e, depois de tanto tempo de dificuldades, ela havia encontrado um lar.

Ísis foi morar em um apartamento com dois irmãos mais velhos, um deles também resgatado das ruas. O adotante tornou-se nosso amigo e compartilhava conosco as fotos de sua felicidade em familia, o quanto ela estava engordando e cada dia mais linda.
Mas, nunca soubemos na verdade qual era a idade e o quanto a vida na rua e os problemas de saúde poderiam ter diminuido sua expectativa de vida.

Então, em um dia, ela simplesmente não acordou mais. Os irmãos acordaram o pai, com miados tristes e o levaram até ela.
Ísis se foi , serenamente, assim como nós a conhecemos. E ela pôde experimentar todo o amor e aconchego que lhe fora negado por tanto tempo antes de minha amiga tê-la encontrado.
Depois da Ísis começamos, sem perceber, uma parceria pelo bem estar desses bichinhos e nossas mãos unidas tiveram muito mais força para darmos a eles finais felizes. A convivência com ela e a saudade fizeram com que seu adotante acolhesse mais dois gatinhos, irmãos, conosco e o lar dele se encheu de amor, mais uma vez.

Todos os animais merecem uma oportunidade de serem tratados com dignidade e amor, não importando sua cor, sexo ou as circunstancias que passaram.

Minha amiga olhou para onde muitas pessoas haviam simplesmente ignorado e virado as costas. A cada gatinho salvo, suas palavras de sabedoria, mesmo em momentos dificeis, meu respeito se torna maior assim como meu carinho para com ela. Eu gostaria que chegasse o dia em que maus-tratos e abandono não mais ocorressem, mas sinto-me feliz por tê-la ao meu lado, nos meus resgates e nos dela, ajudando a fazer de nossa realidade, um pouco menos cruel.


Pela Ísis e todos os nossos "filhos" e amores compartilhados, fica aqui minha gratidão.







12 de mai. de 2010

Henrique, Carlos Magno e Catarina ~ os primeiros amores resgatados

No petshop aqui perto de casa, onde já fiz amizade com todos pelos anos e animais decorrentes, há uma piada sobre minha pessoa toda vez que eu apareço com um novo bichinho resgatado entre os braços. Eles dizem que os bichos "sentem".

Depois de mais de 20 resgates em apenas 2 anos, eu comecei a acreditar nisso.

Arthur já estava morando aqui em casa. Toda a minha necessidade de dar e receber afeto estava preenchida plenamente por ele.

Eu estava voltando da academia, subindo a imensa ladeira da minha casa, quando escutei miados. Miados altos, desesperados.


Segui o som e, se arrastando pelo meio fio, um gatinho amarelo do tamanho da palma da minha mão, no máximo com 1 mês de idade. Ao olhar para o terreno, mais dois gatinhos, um tigrado e uma tricolorzinha, também gritando.


Antes que eu pudesse perceber, estava com os três em meus braço, levando-os para casa para ligar para uma amiga para saber o que fazer com eles. Minha mãe não me deixou entrar. O amarelinho chorava a plenos pulmões e Arthur estava dando um escandalo do lado de dentro, rosnando e bufando.
Os levei para o petshop onde a veterinária os examinou. Estavam com vermes e com principio de conjuntivite. Dei vermifugo, apliquei colirio e pedi uma hospedagem para eles. Ainda não conseguiam comer ração sólida, então ofereci patê, que comeram com vontade.

Com a barriguinha cheia, eles se acalmaram. Os coloquei em meu colo e fiquei fazendo carinho.


O loirinho, Henrique, como Henrique VIII. O tigrado marronzinho, Carlos Magno. E a tricolorzinha negra, Catarina, como Catarina de Aragão.


Fui para casa com o coração na mão, por tê-los que deixar em uma gaiola durante a noite, mas ao vê-los confortaveis um sobre os outros, não mais com medo e sem o perigo de serem mortos, me senti um pouco mais tranquila.

No dia seguinte, fui vê-los assim que o petshop abriu. Os alimentei e pedi para darem banho. Eles já haviam aprendido a usar a caixinha de areia. Eram tão mansinhos e já daquele tamanho, sabiam procurar colo e carinho, indicando que alguem simplesmente os havia colocado naquele terreno para morrer.
Mas, para bebês tão novinhos, ficar escutando latidos de cães estressados e secadores não era justo. Na epoca, fazia parte de uma ONG na minha cidade e uma das meninas concordou em ficar com eles até que estivessem com pelo menos 2 meses. Ela passava boa parte do tempo em casa e poderia dar um lar para eles.

E eu só os vi novamente depois de 1 mês, apesar de receber fotos e ter noticias quase todos os dias. Suas personalidade estavam ainda mais distintas.

Carlos Magno, calmo e adorador de colo, foi adotado assim que retornou para o pet, adotado por um dos rapazes que trabalha lá. Ficou grande, como uma oncinha e somente vi fotos do dia da castração dele. Apesar de ter custeado, estava operada na semana e não pude ir vê-lo, mas tenho certeza de que ele é feliz e bem tratado.
Henrique. Voluntarioso, corajoso e carinhoso à sua maneira. O lider da turma. Brincava com tudo, não se intimidava com os cães, não sabia o pequeno tamanho que possuia. Ele e Catarina cresceram no petshop por um mês, pois ninguem se interessava por eles, apesar da divulgação. Já estavam vacinados, vermifugados e eu iria pagar suas esterelizações. Comiam Royal Canin e estavam crescendo belos e saúdaveis. Em vez de estar indo para a academia, ou fazendo qualquer outra coisa naquele mês de julho, minha diversão era passar o dia inteiro no petshop com eles, vendo-os brincar.



Durante o tempo no pet, uma senhora havia me telefonado dizendo que queria Henrique, pois o antigo gato da casa, não-castrado e com acesso à rua, naquela crença que gato deve "passear" teria morrido. Logicamente, nunca retornei a ligação.


Uma pessoa que se diz protetora, mas que depois descobri que apenas se rotula, pois não faz nada na prática, disse que havia encontrado uma dona para ele. Ela o levou em uma hora que eu não poderia acompanhá-la e sempre que eu pedia noticias, ela respondia genericamente que ele estava bem. Na epoca de ser castrado, pedi para ir na casa da pessoa e conversar com a moça e ela disse que a pessoa que o havia adotado não queria castrá-lo sob o risco de botá-lo na rua se eu fosse lá. Tentei ligar para a pessoa, mas o telefone que ela havia me dado nunca atendia. E nunca mais tive noticias de Henrique.







Catarina. Meu algodão-doce negro, minha princesinha. Depois que Henrique se foi, ela permaneceu sozinha no pet. Pela manhã e tarde ficava solta sob o olhar atento das funcionárias, na esperança que alguem a visse e se apaixonasse por sua personalidade maravilhosa. Infelizmente, a maioria das pessoas ao ver sua pelagem perguntava qual era a doença que ela possuia. E eu, com toda a paciência, explicava que era uma pelagem como qualquer outra, que várias pessoas pagavam mais de 1000 por um persa daquela cor, que geralmente as gatas tricolores são extremamente meigas, brincalhonas e fieis. Mesmo eles testemunhando isso enquanto ela brincava ou dormia em meu colo, não era o suficiente para quererem adotá-la.

E ela permaneceu no pet. Por dias, semanas. Infelizmente a realidade bateu. Os gastos dela começaram a se tornar pesados e eu não possuia nenhuma ajuda. Já havia divulgado Catarina em TODOS os lugares possiveis e não conseguia entender como alguem não poderia se apaixonar tão perdidamente quanto eu.
Então, um dia, uma dona apareceu. Uma senhora que trabalhava como diarista em um dos apts próximo ao pet. Conversarmos durante dois dias, contei para ela todas as minhas angustias e preocupações. E ela levou minha menina. Seus brinquedos, sua ração, os pratinhos roxos, a caixinha de areia... a gaiolinha se tornara vazia, assim como um pedaço do meu coração. E pela primeira vez eu chorei lágrimas de protetora, que ama mas não pode adotar. Que cuida, mas tem que entregar, tirar do peito e esperar todos os dias pelo melhor, que o bem-estar continue para sempre.

Catarina retornou para os meus braços dois meses depois. Veio vacinar com a veterinária do Arthur. Estava feliz, me reconheceu e mesmo diante dos ataques de ciume de Arthur, ela apenas tentou brincar com ele, indiferente à Ira daquele ser tão grande e dono da casa.
Ela dormiu na minha cama até as 16hrs, quando fui entregá-la para a sua dona do outro lado da rua. Se eu soubesse que aquela seria a ultima vez que a veria....
Em janeiro eu havia feito uma cirurgia, mas prometi à dona dela que iria castrá-la assim que ela atingisse a idade adequada. Passei dias ligando para a senhora até que o dia da cirurgia chegou e depois de 30 ligações, ela atendeu dizendo que Catarina havia sumido misteriosamente.
E durante todo o decorrer do dia, ela não havia aparecido. E eu saí do petshop arrasada, chorando, lamentando pelo destino da minha menina, nas mesmas ruas e sujeita aos mesmos perigos que eu a havia tirado e agora, ainda pior, colocando mais filhotes no mundo.
Henrique, Catarina e Carlos Magno.
As primeiras provas de que um coração feliz por um animalzinho pode-se dividir em quantos pedaços for necessário para acomodar outros que necessitam. Desde a adoção deles meus criterios para adotantes se tornaram muito mais rigidos. Infelizmente, não o bastante para evitar completamente algumas tristezas, mas o suficiente para assegurar um numero maior de finais felizes.
É para isso que animais entram em nossas vidas. De tantas pessoas que andam por minha rua, eu os achei, os miados deles me alcançaram. Me tornar uma protetora melhor e olhar para a realidade, além da vida feliz que o Arthur possui. Me fazer querer dar a todos que cruzam meu caminho o que o Arthur têm. Essa foi a missão que eles deixaram para mim.

14 de abr. de 2010

Zazá II, Faruk, Julia e Duquesa - os amores pequeninos

Os três filhotes da Sortuda e Duquesa, que chegou lá em casa já aproveitando a onda das tetas cheias de leite e de uma gata-mãe com muito amor para dar.

Zazá II era uma tricolorzinha com fundo negro, vários rajados dourados e as quatro patinhas brancas, além de um sinal no rosto e um coração branco no peito. Muito lindinha, mas desde o primeiro dia de vida, mostrou ter uma personalidade forte.

Faruk e Julia era os gemeos. Brancos com apenas um detalhe cinza claro em seus pêlos. Muito fofos e bonzinhos.

Sortuda os teve em um dos banheiros desocupados do bar da piscina. Tive o prazer de ajudar no parto e ela permaneceu ao lado deles, uma mãe cuidadosa e exemplar.

Infelizmente, o nosso caseiro não gostava muito de nossos gatos. E achando que não iriamos perceber, colocou veneno de cupins no banheiro em que os bebês estavam.

Sortuda estava conosco do outro lado do jardim e levantou-se com os olhos bem abertos, aflita.

Quando brigamos com ele, disse que não sabia que faria mal. Claro, claro...

Antes que eu pudesse mudá-los de lugar, ela pegou um por um e foi para a laje da casa, onde tinha certeza de que estariam seguros.

E eu perdi a oportunidade de ver bebês gatinhos crescendo. Eles ficaram lá em cima por mais de dois meses, apenas mamando. E durante esse tempo, eu via minha gata por poucos minutos, apenas descia para se alimentar, pegar um solzinho e amamentar o filho mais velho, Charlie, religiosamente. Mas logo ela subia para ficar com seus pequeninos.

Depois de quase 2 meses, conseguimos tirá-los do forro, pois já estavam grandes demais e ficavamos com medo de estarem passando fome. Para a nossa surpresa, estavam muito gordinhos e bem cuidados. Acho que Sortuda caçava passaros e os alimentava.

Duquesa apareceu logo que eles sairam do telhado. Pequena, parecendo uma oncinha e desnutrida, foi recolhida pela moça que trabalhava na casa da minha avó e quando a vi, a levei para casa. Estava com uma forte infecção intestinal que fazia com que todo seu corpo cheirasse mal. Ela nem sequer se importou com o ritual de mordidas e tapas vindos dos outros. Ela estava em um lar, com comida, cuidados e carinho e isso era o mais importante.

Foi a primeira vez que tive que socializar gatos. Nenhum dos três sabia o que era uma pessoa. Demorou várias semanas até que confiassem na gente e começassem a agir como gatinhos domésticos.

Com a eminencia da mudança, os três arrumaram novos lares. Julia foi para a moça que trabalha em nossa casa e foi muito bem cuidada por vários anos até, não castrada, desaparecer. Foi mãe de uma ninhada de gatinhos completamente negros.

Não sei do paradeiro dos outros.
É muito triste cuidarmos de um animal para depois nem sabermos se eles se foram de maneira digna. Mas naquela epoca, sem recursos e com poucos conhecimentos, tenho certeza de que fiz o melhor possivel para eles.

Aprendi que filhotes não devem vir a este mundo por acaso, pois mais bonitinhos que sejam. Uma só gata pode ter até 30 filhotes em um ano. É muita responsabilidade, são muitos lares e bons adotantes, que na prática, são dificeis de achar.

Não há motivos para alguem não castrar seus animais nos dias hoje, onde as cirurgião são bem mais em conta e a informação está acessivel para todos.

Evitar nascimentos desnecessários e sofrimento é um de nossos deveres para com eles.

26 de mar. de 2010

Charlie & China - os amores bebês

Quando Zazá morreu meu pai achou que o melhor a fazer era me tirar de casa e procurar outro gatinho que estivesse precisando de ajuda. Não gostei muito da ideia, afinal, minha filha havia acabado de partir. Procuramos pelo Mercado Central, mas não encontramos nenhum.

Fui para o consultorio dele e fiquei lá chorando durante horas. Ainda chovia muito, o céu e meu coração cinzentos.

Depois de algum tempo, meu pai apareceu com uma coisinha tão cinza quanto o dia,, aconchegada em seu colo. Os olhinhos pequenos, as orelhas feridas, dava para ver as pulgas se movimentando a distancia. O pêlo molhado, ele tremia muito.

O levamos para casa. O primeiro banho quente tirou quilos de sujeira e pulgas. O embrulhei com uma toalha e o sequei. Preparei um cantinho para ele em uma pequena sala entre o meu quarto e do meu irmão. Ele comeu a ração molhada com leite como se fosse a primeira vez na vida que experimentava comida. E depois deitou, encolhidinho no meio das toalhas.

Esse era o China. Corpo branco, apenas o rabinho e as orelhas com duas manchas cinzentas. Os olhos orientais como os de Sortuda. Um miado alto, desesperado querendo atenção, carinho, colo, tudo ao mesmo tempo. Depois da primeira soneca, acordou e veio atrás de nós pela sala, já escalando e cheirando tudo.

Sortuda não gostou nada daquele moleque atrevido. Sentindo o cheiro de leite em suas tetas, tentou recuperar o contato com a mãe a qual havia sido separado e ganhou uns belos tapas por causa disso.

E ele voltou a dormir, dessa vez no quarto do meu irmão, que vivia chamando ele de feio, mas que também já havia se rendido às suas gracinhas.

No final da tarde, meu vizinho, o dono dos cães, me visitou. Não queria vê-lo, mas minha mãe insistiu. Ao chegar na porta ele estava segurando uma bolinha de pêlos. Olhos verdes, com manchas pretas, cinzas e brancas.

Disse que um outro vizinho estava com uma ninhada e ele foi até lá e pediu uma gatinha.

Júlia. O primeiro nome que me veio à mente. Minha mãe agradeceu e lá fui eu, marinheira de primeira viagem, colocar os filhotes juntos, afinal, eles iriam adorar, brincar muito, não é?

Não. Ao ver a gatinha, China, já se achando senhor da caminha de toalhas, quis bater em Júlia e mantê-la afastada da comida. E ela começou a chorar, sem entender nada. Tiraram ela da mãe e dos irmãos, para uma casa desconhecida e para apanhar? Tadinha!

Tadinha mesmo! Ainda erraram o sexo do coitado! Apesar de ser tricolor e menor que China mas da mesma idade, era um rapaizinho!
Charlie! O primeiro e unico macho tricolor que vi em minha vida.

No segundo dia, ja estavam brincando como velhos amigos. Charlie também tentou mamar em Sortuda e por algum motivo, foi aceito. E China, esperto, se enfiava no meio e aproveitava também.

Os meses passando, os bebês crescendo. Passavam horas brincando no jardim ou enchendo a paciencia de Sortuda, que andava curta naqueles dias proximos ao parto.

Quando soubemos que iriamos ter que nos mudar, China foi doado para a moça que até hoje trabalha conosco. Infelizmente ele, não castrado, sumiu pelas ruas quando ficou adulto.

Charlie permaneceu filho de Sortuda até os 7 meses de idade, um gatão lindo, enorme, com a feição permanente de filhote que ainda mamava na mãe adotiva já menor que ele. Ajudava Sortuda a cuidar dos filhotes, apesar das mordidas que levava nas orelhas e cauda quando eles testavam seus dentinhos.

Charlie se derretia todo em nossos braços. Quando se mudou para os fundos do consultorio do meu pai, junto com Duquesa, a ultima tirada das ruas, ainda mantinha sua doçura, apesar de não ter mais um lar.

Foi doado para uma tia minha. E, também, não castrado, desapareceu sem deixar vestigios.

Possivelmente nenhum dos dois ainda estão vivos. Mas espero que tenham tido vidas felizes, com a certeza de que sempre estarão em meu peito.

Dois meninos de personalidades unicas que a vida juntou em nossa familia felina.
Foram muito amados, sem duvidas. E o serão, para sempre.

22 de mar. de 2010

zazá - o primeiro amor

1997.

Nossa mãe nunca permitiu que tivessemos bichos maiores do que passaros ou pintinhos.
Quando os pintinhos cresciam, eram mandados para casa de nossa avó e de lá iam para o galinheiro ou panela. Nós apenas fomos descobrir isso muitos anos depois :P

Em um desses meses tempestuosos em meu Estado, depois de uma noite de chuva, no dia seguinte acordei e fui para o quintal.

E para minha surpresa, uma linda gatinha andando alegremente pelo gramado. Não podia acreditar. Me aproximei lentamente e ela veio em minha direção.

Meu primeiro pavor foi minha mãe descobrir e mandá-la embora. Ela era tão fofinha! Devia ter uns 3 meses de idade. Estava meio suja, então resolvi ir banhá-la atrás do bar da piscina, pois se minha mãe fosse implicar, pelo menos não seria por causa da sujeira.

Foi um escandalo. Nunca havia banhado um gato na vida. Mas, tudo acabou bem e quando a levei para o outro lado para secar ao sol, minha mãe chegou e senti meu sangue gelar, ela já brigando - já está com essa gata no colo?!! Eu disse para o seu pai que não era uma boa ideia!

Meu pai e meu irmão haviam trazido-a desde a noite passada. A encontraram molhada, toda encolhida em um muro, quando meu pai foi buscar meu irmão do treino de natação. Ficaram morrendo de pena, pois ela miou pedindo ajuda e a trouxeram para casa, escondida de mim, pois sabiam que imediatamente iria me apaixonar e talvez minha mãe não permitisse.

Contra todas as possibilidades, Zazá ( batizada por causa da novela ) ficou. Ficou, cresceu e se tornou uma linda moça tigrada, dourada e com uns sinais brancos. O mais marcante deles, uma marca branca ao redor do pescoço. Os olhos verdes extremamente claros, grandes e curiosos.

Ela conseguiu amolecer até o coração duro da minha mãe e passou de gata de jardim para gata de sofá, ficando ao lado dela quase o tempo todo. Sentiamos inveja. E a melhor parte de nosso dia era chegar em casa e ver Zazá nos esperando na porta da cozinha, alegre por estarmos voltando.

Dizem que gatos atraem outros. O reinado de Zazá foi abalado pela vinda de Sortuda, uma linda escama de tartaruga, quase inteiramente branca, com manchas pretas e dourados em seu dorso. Sortuda MESMO. Foi arrastada por um carro na rua, que a fez perder todas as unhas, machucar o rosto e esfolar as patinhas. Apareceu em nossa casa em uma noite, morta de fome, gritando desesperadamente. Mas uma vez, o coração da minha mãe se compadeceu e ela ofereceu carne recem-moída.

Quando cheguei em casa da aula, Sortuda já nos tratava como donos, se esfregando, pedindo carinho e mais um pouco de comida. Zazá bufava, gritava e tentava espancar a outra gata. Sempre tão senhora de seu reino e donos, não admitia que aquela garota pequena, feia e suja entrasse em seu lar.

Demorou um mês para que ela se recuperasse. E Zazá se tornasse sua amiga e companheira, dormindo juntas no telhado ou na varanda, mas sem nunca deixá-la entrar em casa.

Naquela epoca não tinha acesso à internet. Não sabia quase nada de gatos, além do que lia na Cães & Cia. Vacinação se resumia a doses de anti-rabica de campanhas publicas e castração era algo totalmente desconhecido.

E aí, o tempo passou. E com ele, os cios das minhas duas meninas começaram.
Sortuda, por ser mais velha, ia para a rua e demorava dias para voltar, arrancando minhas lagrimas de preocupação. E depois, aparecia, como se nada tivesse acontecido.

Zazá, sempre uma lady, tratada dentro de casa, dormindo no sofá, não sabia o que fazer com aquele arroubo de hormonios. Ela batia nos gatos machos que iam atrás de Sortuda, defendendo seu territorio, mas ao mesmo tempo queria comportar-se de acordo com seus instintos.

Evitamos sua prenhez por 3-4 cios.
Infelizmente, em uma manhã, a natureza falou mais alto. Meu pai a soltou no jardim para passear, como sempre fazia.

E nessa manhã, meu irmão me acordou desesperado, chorando, dizendo que nossa gata estava morta.

Subi no muro e a vi, rodeada pelos pastores alemães do vizinho. Sem vida.
Sua mancha branca dolorosamente manchada de sangue.

Liguei para a casa ao lado e avisei do ocorrido, querendo que permitissem que buscassemos nossa filha.

O caseiro do vizinho jogou seu corpo na sarjeta de nossa casa e ficou fazendo piada. O pêlo sempre tão bem cuidado, todo sujo e coberto de sangue. O pescoço quebrado.

Ainda consigo me lembrar daquela manhã chuvosa, as memorias mais vividas de minhas lágrimas segurando o elefantinho de pelucia dela ( que tenho até hoje ) , até que nossos pais chegassem e soubessem do ocorrido, tentando confortar os filhos que haviam perdido seu primeiro bichinho.

Zazá foi enterrada na praia, para sentir eternamente o cheiro que tantas vezes ficava contemplando ao sentar na varanda à noite.

Ela foi a primeira de vários gatos de minha vida.
Com ela aprendi que os toques para um animal devem ser sempre suaves, respeitosos, assim como a voz e o amor, sempre crescente. E que ao retirar um gato da rua, na verdade, quem ganha é apenas você.

Não temos fotos dela, não temos nada além de lembranças, que para sempre ficarão vividas no coração de cada um de nós, pois ela nunca foi esquecida.